terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Patrimônio Cultural Imaterial

O tema patrimônio cultural imaterial é muito importante ao se abordar a questão indígena. A cultura diferenciada nem sempre está explícita a uma primeira vista simples.
É importante ressaltar que cultura não é algo estático, parado no tempo. Deve-se levar em consideração a troca de conhecimentos e experiências que um grupo mantém com outros, bem como os modos por meio dos quais os conhecimentos, expressões e práticas são apropriados. (GALLOIS, 2011)
A definição de patrimônio cultural imaterial segundo a UNESCO (2006) é: “Entende-se por “patrimônio cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.”
Segundo Gallois (2011), em acordo com essa definição o patrimônio cultural imaterial abrange: as tradições e expressões orais, incluindo a língua como veículo; dança música e artes das representações tradicionais; práticas sociais, os rituais e eventos festivos; os conhecimentos e os usos relacionados à natureza e ao universo; e as técnicas artesanais tradicionais.
Sendo assim, quando se expõe objetos e artefatos indígenas em um Museu pode estar sendo representada a cultura de um povo e não somente o patrimônio material. De acordo com Nunes (1983), cabe ao museólogo, por meio de técnicas especializadas, fornecer ao público o significado comportamental cultural dos objetos expostos.

Adaptação de texto
Isabel S. Saraiva
Indigenista Especializada
Isabel.saraiva@funai.gov.br
Fontes:
GALLOIS, D. T. (org.) Patrimônio cultural imaterial e povos indígenas: exemplos no Amapá e norte do Pará. São Paulo: Iepé, 2011, 96p.
NUNES, M. D. Museu do Índio: as fontes de enriquecimento de seu patrimônio e a utilização cultural do seu acervo. In: MUSEU DO ÍNDIO. Museu do Índio 30 anos, 1953-1983. Edição comemorativa, Rio de Janeiro: 1983, 61p. Disponível em: Acesso em: 09/09/2016.
UNESCO. Convenção para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial (Paris, 17 de outubro de 2003) Tradução: Ministério das Relações Exteriores em Brasília, 2006, 17p Disponível em: Acesso em: 09/09/2016. 

Povos indígenas no Amapá e no norte do Pará

Os povos indígenas no Amapá e norte do Pará possuem uma história em comum de relações comerciais, políticas e rituais que existem a pelo menos três séculos. As relações entre esses povos resultaram em separações de grupos, fusão, substituição e aquisição de novos itens culturais. (GALLOIS e GRUPIONI, 2009)
Os povos indígenas em questão são dez: Galibi Marworno, Palikur, Karipuna, Galibi do Oiapoque, Wajãpi, Aparai, Wayana, Tiriyó, Katxuyana e Zo’é. Esses nomes foram adotados pelos grupos indígenas após diversos processos migratórios, fusão, guerras ou alianças, conforme relatado por viajantes a partir do século XVII. Portanto, as fronteiras entre esses grupos não eram muito bem definidas sendo que a adoção de políticas indigenistas pelos governos do Brasil, da Guiana Francesa e do Suriname a partir do século XX, influenciaram fortemente a definição dessas fronteiras entre os grupos étnicos na região. (GALLOIS e GRUPIONI, 2009)
O padrão de ocupação territorial desses povos também foi influenciado pelas políticas indigenistas, quando o padrão de ocupação dispersa foi sendo substituído pela ocupação concentrada em poucas aldeias que possuíam atendimento de saúde. Entretanto, com o passar do tempo, os indígenas perceberam que a concentração de uma grande população em uma única aldeia apresentava uma série de problemas como a falta de caça, pesca e outros materiais utilizados. E então voltou a aumentar a multiplicidade de pequenas aldeias ao longo das bacias hidrográficas. (GALLOIS e GRUPIONI, 2009)
O cultivo de roças, a caça, a pesca e a coleta compõem a base do sustento alimentar dos povos da região. Todas essas atividades produtivas são orientadas conforme a estação do ano que determina a época mais propícia para cada etapa do cultivo da roça bem como a disponibilidade da caça, pesca e coleta em diferentes áreas. (GALLOIS e GRUPIONI, 2009)
Para conhecer mais estes povos sugere-se a leitura da publicação “Povos indígenas no Amapá e norte do Pará: quem são, onde estão, quantos são, como vivem e o que pensam?” (fonte ao final deste texto) que contribui para a compreensão da variedade de povos indígenas no Brasil e nesse livro é possível conhecer um pouco mais sobre o histórico, formação dos grupos étnicos, línguas, organização social, atividades produtivas e outros assuntos relacionados aos povos indígenas dessa região, apresentando as especificidades e semelhanças.

Adaptação de texto
Isabel S. Saraiva
Indigenista Especializada
Isabel.saraiva@funai.gov.br
Fonte:
GALLOIS, D. T.; GRUPIONI, D. F. Povos indígenas no Amapá e norte do Pará: quem são, onde estão, quantos são, como vivem e o que pensam. São Paulo: Insituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena, Museu do Índio, Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da Universidade de São Paulo, 2009, 96p.

O povo Xavante

Os Xavante habitam uma região do planalto drenada pelos rios Tocantins, Araguaia e Xingu. A vegetação dessa região é predominantemente do tipo presente no cerrado. São nove terras indígenas homologadas: Pimentel Barbosa, Areões, Marãiwatsede, São Marcos, Parabubure, Ubawawe, Chão Preto, Marechal Rondon e Sangradouro. Devendo-se citar também a terra indígena Wedezé já identificada e delimitada. (WELCH et al, 2013). A língua primária dos Xavante é o Xavante, pertecente ao subgrupo Jê Central da família Jê, tronco Macro-Jê (RODRIGUES, 1999 apud WELCH et al, 2013).
Como toda sociedade Jê, a dos Xavante envolve oposições múltiplas e complexas conforme estudado pelo antropólogo Maybury-Lewis. A sociedade é dividida em metades e suas afiliações influenciam política, casamento e atividade cerimonial. Existe também categorias de idade que até certa idade determinam fortemente a vida social dos homens conforme seu vínculo de classe. A partir de determinada idade se fortalece a autonomia individual e o pertencimento a sua metade e afiliações (GRAHAM, 2014). 
As principais atividades produtivas dos Xavante envolvem coleta, caça, pesca e agricultura. Outra atividade importante da economia Xavante é o trekking, que é a prática de grupos de famílias viajarem para longe de suas aldeias em expedições de caça e coleta prolongadas. Sendo que essa prática também ocorre envolvendo exclusivamente grupos de homens (WELCH et al, 2013).
O povo Xavante vive no cerrado do Mato Grosso. Possui avançado e sofisticado conhecimento tradicional de seus campos, matas, chapadões, rios e nascentes. O uso e manejo do meio ambiente e dos recursos naturais existentes em seus territórios são realizados de uma maneira sustentável, entretanto, essa região do cerrado encontra-se ameaçada pelo avanço do agronegócio. Atualmente, as terras indígenas Xavante, podem ser consideradas como “ilhas” verdes envolvidas por monoculturas e pastos (WELCH et al, 2013).
São muitas questões a serem aprofundadas sobre o povo Xavante. E é muito importante a divulgação da cultura Xavante para a proteção dos direitos indígenas e promoção do respeito à diversidade étnica do Brasil por meio da informação. Nesse sentido, indica-se a leitura das fontes detalhadas abaixo para a compreensão melhor desse povo indígena.

Adaptação de texto
Isabel S. Saraiva
Indigenista Especializada
Isabel.saraiva@funai.gov.br
Fontes:
GRAHAM, L. R. Uma esfera pública na Amazônia? A construção de discurso colaborativo despersonalizado entre os Xavante. In: COIMBRA, C. E. A.; WELCH, J. R. (Orgs.) Antropologia e história Xavante em perspectiva. Rio de Janeiro: Museu do Índio – Funai, 2014.
RODRIGUES, A. D. Macro-Jê. In: DIXON, R. M. W. AIKHENVALD, A. Y. (Orgs.) The Amazonian Languages. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
WELCH, J. R.; SANTOS, R. V.; FLOWERS, N. M..; COIMBRA JR, C. E. A.  Na primeira margem do rio: território e ecologia do povo Xaxante de Wedezé. Rio de Janeiro: Museu do Índio - Funai, 2013. 

Os Tiriyó e as miçangas*

O povo indígena Tiriyó concentra-se ao norte do Estado do Pará, na faixa ocidental da Terra Indígena Parque de Tumucumaque, ao longo dos rios Paru de Oeste e Cuxaré, tendo também nessa região indígenas Kaxuyana; além disso, algumas famílias Tiriyó compartilham as margens do médio ao alto curso do rio Paru de Leste com os Aparai e Wayana; e existe também uma população de Tiriyó no Suriname. Os Tiriyó são falantes da língua tiriyó, pertecente à família Caribe. Denominam-se Tareno que significa “os daqui (dessa região)”, que inclui diferentes grupos que foram denominados como um único grupo, os Tiriyó, após a chegada de missionários.
Os Tiriyó, assim como muitos povos indígenas, utilizam a miçanga para produção de variadas peças. Para as mulheres Tiriyó, o ato de tecer fios de algodão com miçangas possui analogias com o ato de gerar vidas. O tear é comparado a uma aldeia, na qual se tecem relações entre coisas ou entre pessoas e, assim como o algodão traz a miçanga para dentro do tear, a mulher também não deve sair de sua aldeia e sim, quando casar, trazer o homem para dentro de sua casa ou aldeia.
Os povos indígenas possuem modos específicos de se organizar, de utilizar o território e as normas sociais. Nesse sentido e considerando o parágrafo acima, observa-se que as regras de organização social desse povo indígena são utilizadas como metáforas para a arte de produzir objetos feitos com miçanga.
Os Tiriyó, assim como os Kaxinawá, Kayapó e Wayana, possuem um mito de origem da miçanga que fala de uma árvore gigantesca coberta de miçangas de todas as cores, que existia no meio da floresta, tratando-se de um período anterior à chegada de não índios em seus territórios.
Considerando o exposto acima, fica claro que as miçangas possuem importância histórica, social e cultural para o povo indígena Tiriyó. Podendo-se perceber que os mitos das miçangas estão repletos de significados para esse grupo indígena.

*Adaptação de texto da Exposição “No Caminho da Miçanga”
Isabel S. Saraiva
Indigenista Especializada
isabel.saraiva@funai.gov.br
Fonte:
Textos da Exposição “No Caminho da Miçanga – um mundo que se faz de contas”, com curadoria de Els Lagrou, em exibição no Museu do Índio/Funai.

Miçanga e povos indígenas*

As miçangas são utilizadas por diversos povos no mundo inteiro. São pequenas contas de vidro que recebem muitos significados importantes ao se transformarem em objetos de troca e base para artes que enfeitam o corpo e utensílios. Mostra uma relação entre mundos diferentes quando povos indígenas absorvem um material produzido por não-indígenas para transformar em objetos repletos de saberes e práticas.
Muitas pessoas, ao se depararem com a arte indígena feita na miçanga, analisam de forma questionadora devido ao fato de sua base ser um material industrializado e não do ambiente natural. Entretanto, além de se tornarem enfeites belíssimos, trata-se de símbolos de grande criatividade ao serem totalmente transformados em adornos cheios de valores culturais e sociais.
Para muitos povos indígenas, as miçangas estão no mesmo nível de outros materiais usados na produção de enfeites como penas, dentes, ossos e sementes. Alguns povos consideram que utilizar esses materiais remete a uma pacificação dos seres que deram origem e não uma eliminação dessa relação. O uso da miçanga, então, estimula a arte dos povos indígenas de se enfeitarem com colares, braceletes, tangas e cocares – produtos que já eram elaborados com outros materiais – e, de uma forma dinâmica, foram incorporando as miçangas.
Além da produção de enfeites, deve-se considerar o significado do uso das miçangas pelos povos indígenas, sendo que muitos possuem mitos de origem desses materiais e rituais relacionados.
As miçangas contam história remetendo aos encontros dos colonizadores com os indígenas e as frentes de atração, nos quais eram oferecidas aos indígenas ferramentas e também colares de miçanga. Entretanto, em algumas regiões, muitos povos tiveram acesso a esses materiais por meio de trocas com outros grupos indígenas e grupos quilombolas. Sendo assim, são materiais que representam a dinâmica de relações entre diversas sociedades.

*Adaptação de texto da Exposição “No Caminho da Miçanga”
Isabel S. Saraiva
Indigenista Especializada
isabel.saraiva@funai.gov.br
Fonte:
Textos da Exposição “No Caminho da Miçanga – um mundo que se faz de contas”, com curadoria de Els Lagrou, em exibição no Museu do Índio/Funai.

As miçangas na cultura popular brasileira: o Bumba-Meu-Boi do Maranhão*

As brincadeiras de boi estão entre as manifestações culturais populares mais difundidas em todo o Brasil, recebendo formas, designações e características peculiares segundo a região de ocorrência. 
Manifestação característica das festes juninas, com influências africanas, indígenas e européias, o Bumba-Meu-Boi é o carro-chefe da cultura popular do Maranhão. Originalmente, a brincadeira é feita em homenagem a São João, o Santo protetor dos “boieiros” – que, junto com Santo Antônio, São Pedro e São Marçal, comandam a animada folia maranhense. Tido como uma brincadeira barulhenta e fortemente criticado pelas elites locais devido ao conteúdo satírico, irreverente e contestador de suas mensagens – contadas em toadas (cantigas) e tropeadas (batuques), comandadas pelos “amos” cantadores –, chegou a ser proibido e reprimido pela polícia na segunda metade do século XIX. Hoje, após um processo recente de valorização de seu universo popular, por parte de setores da sociedade e do Estado, é motivo de orgulho, fonte de valorização e elemento de afinidade para os diversos segmentos da população. Paralelamente à dança e à música, desenvolve-se um teatro cômico pela encenação de pequenas tramas, com diferentes personagens e motivos, tendo sempre em comum a presença do boi no papel central. 
Para além das histórias contadas, assim como para muitos povos indígenas, os adereços e vestimentas adornados com miçangas são elemento fundamental que confere beleza singular a essa festa. O próprio boi, confeccionado em madeira por artesãos especializados, é todo coberto por um “couro”, bordado em veludo com miçangas e canutilhos (aproximadamente 2 kg de cada) – trabalho que dura, geralmente, um mês –, bem como os coletes dos vaqueiros, roupas e chapéus dos brincantes, todos minuciosamente bordados. Devido à sazonalidade da produção de bordados, no entanto, as hábeis artesãs e artesãos, moradores de bairros pobres, precisam recorrer a outras atividades para assegurar sua renda mínima de sobrevivência, tais como a lavoura, a pesca e os serviços gerais. Há centenas de grupos em atividade espalhados por todo o Maranhão, que se diferenciam entre si em termos de ritmo, coreografia, instrumentos musicais, personagens e indumentária próprias de cada grupo, constituindo diferentes sotaques, de acordo com suas particularidades musicais predominantes e seu local de origem.


Adaptação de texto 
Bruna C. S. Seixas
Chefe do Serviço de Atividades Culturais
bruna.seixas@funai.gov.br 
* Agradecimentos à equipe do Arquivo Sonoro e Visual da Biblioteca Amadeu Amaral, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/IPHAN, que nos auxiliou na pesquisa bibliográfica e cedeu material de seu acervo audiovisual para compor a exposição “No Caminho da Miçanga: um mundo que se faz de contas”. 
Fonte:
“Fé e Festa: Bumba-Meu-Boi do Maranhão” / pesquisa e texto de Carla Costa e Luciana Carvalho – Rio de Janeiro: Funarte, CNFCP, 2002.

Os Mebengôkre (Kayapó) e as miçangas*

Os Mebengokre – autodenominação que significa "os homens do buraco/lugar d'água" –, mais conhecidos como Kayapó, são um povo falante da língua de mesmo nome, da família linguística Jê, que totaliza 10.357 pessoas (IBGE, 2010). Na região do Brasil Central, habitam 9 Terras Indígenas (TIs) no sul do Pará e norte do Mato Grosso, no rio Xingu e seus afluentes.
Entre os Kayapó, as coloridas miçangas hoje são muito utilizadas para enfeitar os corpos. Nas peças mais antigas presentes na exposição “No Caminho da Miçanga”, ela aparece como detalhe nos enfeites, nas braçadeiras ou nas bandoleiras (usadas para carregar material nos ombros), tradicionalmente feitas de algodão cru e outros materiais extraídos da floresta. Já nas peças confeccionadas nos dias de hoje, a miçanga tornou-se a matéria-prima principal, em uma enorme variedade de cores e formas, que evidenciam, na exuberância de sua decoração, sua importância para este povo como símbolo de beleza, de prestígio e de felicidade. Os Kayapó, assim como outros povos indígenas, explicam a origem dessas contas por um mito que fala de uma árvore gigantesca, coberta de miçangas de todas as cores, que existia no meio da floresta. Em alguns casos, era difícil encontrá-la porque o lugar era distante ou encantado; em outros, ela era guardada por um dono invisível, ciumento e perigoso.
No caso das braçadeiras padjé, marca registrada dos homens guerreiros, a versão antiga, simples e em algodão, passou a ser chamada de ‘bracelete falso’, enquanto a versão em miçanga se tornou o ‘bracelete verdadeiro’. Nos novos modelos de padjé, as mulheres, que produzem todos os itens feitos em miçanga, utilizam grafismos baseados na pintura corporal e nas peles dos animais, de modo estilizado. Muitas figuras são capturadas no mundo dos não-indígenas e reproduzidas do modo mais fiel possível: marcas esportivas como Puma e Nike, símbolos da Funai e do Banco do Brasil, bandeiras do Brasil, escudos de times de futebol e da seleção, siglas de nomes de aldeias e de partidos políticos.

*Adaptação de texto da Exposição “No Caminho da Miçanga”
Bruna C. S. Seixas
Chefe do Serviço de Atividades Culturais
bruna.seixas@funai.gov.br 

Fonte:
Textos da Exposição “No Caminho da Miçanga – um mundo que se faz de contas”, com curadoria de Els Lagrou, em exibição no Museu do Índio/Funai.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Projeto "O Museu do Índio vai às escolas"

Os projetos educativos voltados para a visitação escolar em museus são determinantes para o sucesso na interatividade entre o aluno/professor visitante e as unidades museológicas visitadas. Diversos museus fazem dos seus projetos educativos uma forma de aproximação com o público escolar e fator primordial na comunicação com o público externo.
Inserido no projeto educativo museológico, vários museus se propõem a sair de seus espaços físicos e levar para as escolas uma parte de seus materiais expositivos. É relativamente comum denominarem esse tipo de atividade como “O museu vai à escola”. Esse tipo de projeto traz como benefício principal oferecer exposições itinerantes àquelas unidades escolares que têm dificuldade em deslocar suas turmas para uma visitação presencial nos museus, seja por dificuldades financeiras na contratação de transporte ou por ausência de tempo pedagógico para realização de atividades externas.
O oferecimento de visitas qualificadas de equipe educativa museológica nas escolas permite um diálogo aberto entre a comunidade escolar e os museus, ressaltando que o material levado às escolas é somente uma pequena parte daquilo que é oferecido nos espaços físicos dos museus. Esses projetos também têm a característica de ampliar a curiosidade latente no público estudantil acerca das temáticas propostas. Não raro, depois das visitações às escolas verifica-se um retorno de público presencial nos museus, em geral até como contrapartida natural pela divulgação de outros produtos expostos. Essa prática também se reflete no acesso aos dados virtuais nas páginas dos museus na internet por parte das comunidades escolares.
O que o Museu do Índio poderia oferecer às escolas?
A primeira coisa que devemos ter em mente, após acordo entre o museu e a escola a ser visitada é o transporte disponível e a equipe que irá se deslocar à escola. O Museu do Índio possui entre seus veículos um utilitário com capacidade para 14 passageiros, se pensarmos em uma equipe mínima de dois monitores/facilitadores e um servidor que atuaria tanto como contato com a direção escolar como possível palestrante em caso de demanda por informações mais qualificadas sobre a temática indígena.
A periodicidade nas visitações poderia ser de duas visitas semanais, iniciando com uma visitação escolar na forma de “projeto piloto”, até que tenhamos um quantitativo considerável de agendamentos.
Na parte de estrutura material, uma proposta seria levar Kits etnográficos e fotográficos além de vídeo institucional e vídeo etnográfico.
No sentido de otimizar o pouco tempo disponível dentro das unidades escolares haja vista a quebra da rotina diária na escola, faz-se necessário um acordo negociado entre o Museu do Índio e a direção da escola a ser visitada. Seria interessante que parte da equipe pedagógica da escola se responsabilizasse previamente pelo espaço a ser oferecido e mídia para os vídeos do acompanhamento aos alunos que estiverem presentes no evento. A presença de professores também é vital para o bom andamento das atividades bem como pelo retorno posterior dos impactos da visita a escola.  Fator não desprezível ao projeto é a análise anterior do público escolar a ser atendido. As unidades escolares dividem seus alunos por série e espera-se que a faixa etária seja relativamente uniforme dentro das séries. A faixa etária dos alunos está agrupada dentro dos seguintes segmentos:
Pré-escolar – crianças até 5 anos de idade;
1º Segmento – crianças de 6 a 10 anos de idade;
2º Segmento – crianças de 11 a 14 anos de idade;
Ensino Médio – adolescentes de 15 a 17 anos de idade.
É essencial a adaptação da linguagem adequada a cada faixa etária no momento de diálogo com as turmas, assim como na utilização do material levado para interação.

Adaptação de texto
Alexander Noronha de Albuquerque
Sociólogo

Referências
DUARTE, Thiago Melo e SANTOS,  Juvandi de Souza. O Museu vai a escola: exposição itinerante do Museu de História Natural da UEPB. http://mhn.uepb.edu.br/revista_tarairiu/n8/8_art2.pdf, acesso em 08/09/2016.

O Museu vai à escola: Museu de Ciências Itinerante em atendimento às escolas rurais do Município de Juiz de Fora, MG, Brasil. “Cartilha do Professor”, http://www.ufjf.br/malacologia/files/2012/12/Cartilha_2.pdf, acesso em 08/09/2016



Os espaços expositivos do Museu do Índio

Entre as atribuições do Museu do Índio, unidade técnico/científica da Fundação Nacional do Índio/Funai, está a disponibilização de informações através de diferentes suportes, incluindo exposições. Para efetivar essas exposições e alcançar o maior número possível de visitação presencial, o Museu precisa permanentemente realizar reformas e adaptações no prédio do casarão e demais áreas expositivas. Não é uma tarefa fácil diante das restrições econômico/financeiras impostas cotidianamente pelos órgãos gestores. Desta forma, o processo de reorganização do espaço demanda tempo e recursos, além de grande esforço de pessoal capacitado nas áreas de engenharia, arquitetura e museologia para divulgar informação qualificada e compatível com a vivência dos povos indígenas brasileiros. Reduzir o preconceito e permitir que as populações indígenas se expressem para a sociedade não indígena é condição básica para que se mude o olhar leigo e impregnado de inconsistências que envolvem a temática indígena.
Para realizar tais atividades o museu conta, no atual momento, com uma exposição de longa duração, intitulada “No caminho da miçanga- um mundo que se faz de contas”, uma mostra temporária intitulada “O Poder da Beleza: os Ashaninka” e uma mostra fotográfica no muro externo do museu. A todo esse belo material exposto somam-se as atividades propostas na Biblioteca Marechal Rondon e a venda de artesanato indígena na loja do museu. É importante ressaltar que a maior parte do público presencial é composta de visitação de alunos de escolas públicas e particulares dos municípios que compõem a região metropolitana do Rio de Janeiro. Recentemente os jardins do museu vêm sendo ocupado por grupos de mães que encontram aqui um ótimo e seguro acolhimento para receber um seleto grupo de crianças em seus primeiros anos de vida. É gratificante para os envolvidos na questão indígena nacional saber que podemos contar com o esforço e dedicação dos servidores e equipe contratada para atender às mais diferentes demandas dos visitantes. Não por acaso o Museu do Índio se tornou referência nacional e internacional na área museus etnográficos.

Adaptação de texto
Alexander Noronha de Albuquerque
Sociólogo

Referências

http://museudoindio.gov.br, acesso em 01/09/2016.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Museu de Portas Abertas: o acervo etnográfico do Museu do Índio

Em 2016, o Museu do Índio completou sessenta e três anos de atuação no campo da preservação da memória e do patrimônio dos povos indígenas no Brasil. Criado em 1953, a partir das atividades de pesquisa da Seção de Estudos (SE) do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), o museu está ligado à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e é reconhecido como um dos mais importantes museus etnográficos do país, pela riqueza e diversidade de seu acervo. Além do reconhecimento alcançado pelo rigor técnico com que guarda e conserva os bens de cultura o material dos povos indígenas, a instituição possui o segundo maior acervo etnográfico dos povos indígenas no Brasil, com pouco mais de 19 mil objetos etnográficos contemporâneos, confeccionados exclusivamente por povos indígenas que viveram e vivem no território brasileiro e da América Latina. São expressões da cultura material que representam aproximadamente 150 povos indígenas de todo o Brasil e alguns da América do Sul.
Quem imagina esta riqueza que o acervo do Museu do Índio guarda e preserva? Quantas histórias e conhecimentos de artistas indígenas e de suas culturas estão presentes nestes objetos conservados nas salas das reservas técnicas? As histórias de como as coleções etnográficas se formaram e como são guardadas expressam as transformações no pensamento antropológico, bem como revela mudanças nas técnicas e nos instrumentos de organização de acervos nos museus do Brasil. Neste artigo, procurei trazer um panorama geral sobre a história da formação do acervo etnográfico do Museu do Índio e um breve levantamento de seu conteúdo. Esperamos nos próximos textos, abordar coleções específicas, com o intuito de contribuir para o conhecimento sobre este diversificado mundo da cultura material dos povos indígenas. 
A organização do acervo do Museu do Índio se baseou no desenvolvimento de categorias básicas já consagradas na bibliografia etnológica para classificação de objetos indígenas. Essa classificação leva em conta primordialmente a matéria-prima empregada, a técnica de confecção que dela deriva e a morfologia do artefato. Assim, o acervo do Museu do Índio foi organizado por tipos de coleção, tomando por base uma classificação desenvolvida no Brasil por Berta Ribeiro em pesquisa sobre a “nomenclatura das coleções etnográficas”, que teve como desdobramento a publicação “Dicionário do Artesanato Indígena” (1988). A partir desta nomenclatura que regulamentou as normas para trabalhar com coleções etnográficas, o acervo etnográfico do museu do índio foi organizado com critérios “científicos”, sendo estabelecidas 11 categorias para os tipos de coleções, a saber: 1) objetos rituais, mágicos e lúdicos, 2) adornos plumários, 3) armas, 4) cerâmica, 5) cordões e tecidos, 7) instrumentos musicais e de sinalização 8) utensílios e implementos de materiais ecléticos, 9) trançados, 10) etnobotânico e 11) adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador. 
O acervo apresenta um certo equilíbrio quanto à distribuição por tipo de categoria (coleção), cada uma com um total variando entre 1750 e 2400 objetos, sendo que as duas maiores coleções são as de adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador, com 4.058 itens, seguida pela coleção de cerâmica, com 2.478 peças. A categoria com menor representatividade é do acervo de etnobtânica, que tem apenas 54 itens registrados. 
As melhorias em relação aos acervos etnográficos vêm ocorrendo mais recentemente, a partir dos anos 1990, quando adotou-se uma política para maior organização das Reservas Técnicas para melhor conservação do acervo etnográfico e, posteriormente, a partir de 2000, foi iniciado um novo processo de reformas com objetivo de otimizar o espaço destinado ao acervo e visualizar o mesmo objetivando o controle de pragas. Em relação à documentação dos objetos etnográficos, até 1967 o registro das peças era feito item a item, individualmente, sendo somente a partir de então implementado o registro tripartido, por “coleção”. Esta informação facilita ao pesquisador identificar um conjunto de peças que foi doado ou comprado pela instituição de um mesmo “colecionador”. No entanto, esta “coleção” não apresenta necessariamente uma coerência, nem representa uma mesma coleta, feita por um mesmo pesquisador, em uma mesma comunidade ou um determinado período, mas reflete apenas a formalização da entrada de bens que são patrimonializados pelo Estado. Neste sentido, até meados dos anos 1990, a instituição o fazia por meio do Livro de Tombo, quando então o registro passou a ser feito também em uma base de dados digital. Em 2007, migrou-se para um software livre para inclusão de itens individuais, que possibilita um número de informações bem maior que o livro de tombo. Assim, no que se refere à difusão de informações, a instituição vem aperfeiçoando seus instrumentos de pesquisa on-line, oferecendo informações e imagens sobre seus acervos, que encontram-se disponíveis ao acesso por qualquer pessoa, de qualquer lugar, por meio da rede da Internet. Mais recentemente, com o Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (ProgDoc), outras atividades contribuiram para o aprimoramento de informações das coleções existentes, com o acompanhamento e revisão das informações registradas nas fichas catalográficas dos objetos pelos próprios indígenas, além da aquisição de novas coleções. 
O acervo do Museu do Índio apresenta um amplo universo de oportunidades para investigação, caracterizando-se como um complexo e heterogêneo conjunto de peças, coletadas e colecionadas ao longo da história da instituição por diferentes agentes. Algumas curiosidades são as coleções formadas por predidentes da República, presidentes da Funai, padres e missionários. Atores importantes foram  sobretudo os sertanistas que desbravaram as matas e tiveram envolvidos nos processos de contato, como também os funcionários e indigenistas da Funai e de outras instituições, que colaboraram com itens para a formação dos acervos do Museu do Índio. Entre eles, destacamos Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, os irmãos Villas Boas, Max Boudin, Egon Schaden, Ney Land, Geraldo Pitaguary e Mário Simões, que organizaram coletas e fizeram registros fotográficos e fílmicos de alguns grupos indígenas, como os Karajá, Kadiwéu, Maxakali, Karajá, Baniwa, povos do Xingu, entre outros. 


                                                               
                          Terena. Pote. Mato Grosso do Sul. 1955                                        Coleção: Roberto Cardoso de Oliveira      

                                                 
Urubu. Pente de uma haste singelo . Maranhão. 1952
Coleção: Darcy Ribeiro

Mais recentemente, pesquisadores acadêmicos vem contribuindo para a qualificação das coleções etnográficas, que apresentam maior definição em termos de informações documentais e etnográficas. Aí podemos destacar Roberto Cardoso de Oliveira, com ampla coleção do povo Terena, Julio Cézar Melatti e Delvair Montaigner, que formaram importantes coleções dos povos Marubo, Matis e Mayoruna, Berta Ribeiro, entre outros com a coleção Araweté, Lux Vidal e a coleção Palikur e dos povos do Oiapoque, Dominique Gallois e a coleção Wajãpi, Regina Muller e as cerâmicas Asurini, Lucia van Velthem, com coleções Wayana e Aparaí, entre outros. 
                                                  
                       

 Wajãpi. Brinquedo de bico de tucano. Amapá. 2001. 

                           Coleção: Dominique Gallois                              


 Wajãpi. Amuleto Wayãpi. Amapá. 2001
                                             Coleção: Dominique Gallois                                                                                    


 Importante destacar as inúmeras coleções formadas pelos próprios indígenas desde os anos 80, como as coleções de trançados dos indígenas Xyhcaprô Krahô, Jacalo Kuikuro e Julia Macuxi, bem com as de plumárias, de Talukumã Kalapalo e Arrula Waurá e a grande coleção de cerâmica da índia  Quitéria Pankararu.  


Kalapálo. Braçadeira emplumada. Mato Grosso. 1987.
Coleção:Índio Tafukumã Kalapálo


Assim, apesar de ter um alto nível de organização dos acervos institucionais, foi possível identificar que muitas informações sobre a história das práticas institucionais de colecionamento, sobre os processos de formação das coleções e sobre os agentes envolvidos nestes processos ainda estão por ser feitas a partir da pesquisa no acervo etnográfico. São muitas as possibilidades de explorar e contribuir para o melhor conhecimento da história dos povos indígenas no Brasil e de sua ampla contribuição artística. Como os eventos de arte em que o público circula por entre os ateliers de arte espalhados pelos bairros da cidade, a pesquisa no acervo etnográfico pode ser uma forma de percorrer as vielas e trilhas por entre os objetos de arte dos povos indígenas no Museu do Índio, observando, conhecendo e desfrutando a sua beleza e diversidade, como se tivesse mesmo visitando os “ateliers” indígenas. 


Renata Curcio Valente
Economista e Antropóloga 
    

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Produção Cultural Contemporânea dos Povos Indígenas: uma jornada de saberes

Há seis anos atrás, em início de 2010, Museu do Índio deu início a uma linha de fomento a projetos culturais dos povos indígenas, que chamamos de “Programa de Apoio a Projetos Culturais dos Povos Indígenas”. Este programa passou a fazer parte das ações do Plano Plurianual (PPA) da Fundação Nacional do Índio para 2012-2015, e foi renovado para o período 2016 a 2019. Neste ano de 2016, estamos dando continuidade às atividades em sua 6ª Edição, avançando a partir da experiência adquirida ao longo dos últimos anos no sentido de promover a divulgação das iniciativas apoiadas. Pretende-se, assim, dar visibilidade à participação dos indígenas na elaboração e na execução dos projetos culturais, que contam com o apoio do Museu do Índio e das coordenações regionais da FUNAI. 
O programa tem como objetivo promover e divulgar as manifestações culturais tradicionais e contemporâneas dos povos indígenas, seja na produção de artefatos, na comercialização, distribuição e divulgação da produção cultural, no registro e documentação do patrimônio cultural, nas oficinas de repasse de saber intergeracional, na capacitação técnica de indígenas como agentes culturais, bem como no apoio às celebrações. O apoio direto às comunidades indígenas e o uso sustentável dos recursos naturais são princípios norteadores, e a escolha dos projetos envolvem a plena e efetiva participação das comunidades na sua elaboração e desenvolvimento. 
Até 2015, cerca de 70 etnias foram contempladas por meio do apoio a 224 projetos culturais, com uma média de cinquenta e seis projetos anuais apoiados, seguindo neste ano de 2016, com 23 projetos, uma pequena contração que reflete as restrições orçamentárias do momento. Ainda que expressivo, o número de projetos acumulados não é capaz de revelar o amplo alcance dos projetos e sua capacidade de multiplicação entre os povos indígenas. O estímulo que um projeto desenvolvido gera em outro grupo vai além de nossa capacidade de mensuração quantitativa. Os resultados observados por meio da publicação de livros, da realização de filmes, encontros e mostras de filmes, têm efeitos multiplicadores e exemplares entre os indígenas e são realmente transformadores, sobretudo quando se tratam de oficinas de repasse de saber ou de celebrações rituais.
Ao longo destes anos, recebemos muitos produtos, resultado dos projetos, que fazem parte do acervo do Museu do Índio, que são importantes fontes de informação sobre a produção cultural contemporânea dos povos indígenas. Este material pode ser rica fonte de consulta e pesquisa por parte de professores, estudantes e pesquisadores em geral, interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre as culturas indígenas.
Para se ter uma ideia da diversidade da produção contemporânea dos povos indígenas, há DVDs produzidos e editados pelos indígenas, como o das “Festas Xinguanas”(2013), envolvendo cineastas indígenas e “Me’ Ôk: A Pintura Corporal dos Kayapó” (2013). São muitas também as publicações produzidas, como o “Inventário da Cultura Material Terena, (2012) e o livro “Me à yry Tekrejarôti-re: os trabalhos artesanais dos Mebengôokre-Kayapó da Aldeia Las Casas” (2012), em parceria com o Museu Emílio Goeldi, do Pará. Interessante também a publicação do livro e disco dos Tuxá sobre as “Cantigas de Rodas e Brincadeiras Cantadas” (2014). Além destes produtos, importante citar que foram realizadas duas mostras de filmes, a “Mostra de Cinema Indígena do Alto Xingu” (2012) e a Mostra “Cinema nas Aldeias Xavante: ver, ouvir e debater” (2015), onde são transmitidas filmes sobre as culturas locais aos próprios indígenas e ao público em geral das comunidades do entorno de terras indígenas.  Além disso, temos os registros de celebrações e de encontros interétnicos como o “Reencontro dos Kanamari: do Itaquaí ao Jutaí, uma viagem nos cantos do Vale do Javari” (2013). 
Estas inúmeras iniciativas revelam capacidade criativa dos povos indígenas em desenvolver produtos contemporâneos, com base em conhecimentos ancestrais. Os projetos que têm sido desenvolvidos pelos povos indígenas de todo o Brasil, serão divulgados com o objetivo de dar a oportunidade a todos de conhecer estes belos trabalhos. Embarque conosco nesta jornada de investigação e de conhecimento! Acompanhe os textos que iremos publicar! Para instigar a curiosidade, assista aqui (copiar link) um trecho do vídeo “Me’ Ôk: A Pintura Corporal dos Kayapó” (2013).


Renata Curcio Valente
Antropóloga e Economista
SEESP/CODIC/Museu do Índio

O Museu do Índio e sua contribuição para a Lei 11.645

Muitos professores do ensino fundamental e médio, diante do desafio de trabalhar sobre as temáticas indígenas em sala de aula, desconhecem as inúmeras possibilidades que os acervos do Museu do Índio representam. São cerca de 19 mil objetos etnográficos, 15 mil publicações nacionais e estrangeiras, especializadas em etnologia e áreas afins, além de fotografias, vídeos e gravações de povos indígenas de todo o Brasil, muitas delas produzidas pelos próprios indígenas. A pergunta que pode surgir seria então, por onde começar? Como fazer? Ao refletirmos sobre as experiências de um projeto de prática de formação continuada de professores, desenvolvido em 2010 pelo Museu do Índio, em parceria com a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC), relacionada à publicação da Lei 11.645, de 2008, pretendemos contribuir para estímular novas parcerias com professores e estudantes, criando um espaço de diálogo e parceria continuada para investigação e pesquisa escolar. 
O projeto Povos Indígenas: Conhecer para Valorizar teve como objetivo enfrentar os desafios colocados pela publicação da Lei 11.645/08, por meio de atividades no Museu do Índio orientadas para professores da rede pública estadual. Formulamos este projeto a partir da demanda e do interesse de professores da rede pública estadual, apresentadas pela Coordenação de Diversidade e Inclusão Educacional da SEEDUC, que se consolidou, a partir de seu acolhimento pela equipe da Coordenação de Divulgação Científica do Museu do Índio (CODIC) do Museu do Índio/FUNAI, na construção conjunta de uma proposta de ação que veio a se concretizar em 2010 no projeto Povos Indígenas: Conhecer Para Valorizar. 
A Lei 11.645 aborda o tema da diversidade e da etnicidade na educação básica e fundamental, distinguindo-se de outras políticas orientadas para segmentos sociais etnicamente diferenciados. Não se propõe a definir políticas educacionais para os povos indígenas ou afrobrasileiros, mas torna obrigatória a inclusão do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos currículos do ensino fundamental e médio, da rede pública e privada. Propõe uma abordagem transversal das temáticas, na medida em que define que o conteúdo seja trabalhado “no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras”. 
Estas questões sinalizam para os desafios que esta lei nos coloca a todos, professores e profissionais que trabalham em museus etnográficos, instituições que atuam no campo da memória e do patrimônio cultural dos povos indígenas. A publicação da lei 11.645 e sua aplicação em sala de aula tem exigido um comprometimento que vai além dos próprios esforços dos professores e exige uma ação conjunta em várias instâncias de decisão. São aspectos que estão ligados à falta de recursos didáticos disponíveis, à falta de atualização dos livros didáticos e à própria formação dos professores. Os recursos didáticos disponíveis para o trabalho com a faixa etária escolar de ensino fundamental e médio ainda são defasados e pouco eficazes e a falta de atualização nas formações dos professores prejudicam seu bom desempenho em relação a mudanças recentes, o que define um quadro, entre os professores, alunos e pais de alunos no meio escolar onde persistem muitas ideias preconceituosas em relação aos povos indígenas.
A proposta do projeto Povos Indígenas: Conhecer Para Valorizar começou ainda em 2009, quando a SEEDUC apresentou ao Museu do Índio o seu interesse no desenvolvimento de cursos de formação sobre a temática indígena para os professores da rede. Mobilizados por este envolvimento dos professores, consolidamos a parceria em 2010, elaboramos uma proposta que foi orientada para a capacitação de 180 professores da rede pública de todo o Estado do Rio de Janeiro, alcançando os municípios que iam do sul do Estado, como Angra dos Reis, até Pádua, Nova Friburgo, Duque de Caxias e Cabo Frio, chegando até o norte, em Campos dos Goitacazes. Elaboramos diferentes formatos de atividades para reflexão, formação, debate e visitação a exposições, destinado à formação continuada dos professores que participaram de dois cursos: o Dimensões das Culturas Indígenas e Conhecendo os Povos Indígenas: História, Cultura e Protagonismo Indígena, onde abordamos aspectos da lei 11.645/08, aspectos gerais das relações etnico-raciais no Brasil, a história indígena e o indigenismo no Brasil e a presença dos Guarani Mbya no Estado do Rio de Janeiro, entre outros. Foi realizado também uma atividade de visitação guiada às exposições e às reservas técnicas do Museu do Índio e de debate, à qual chamamos “Um dia no Museu”. A partir do trabalho de capacitação dos professores, por meio de cursos, palestras e visitas, cada um destes professores retornou ao Museu do Índio com seus alunos para visitação. Tivemos assim, em um período de apenas seis meses, um público de 7.200 alunos visitando as instalações do museu, formado, em sua maioria por um segmento pouco assíduo no museu, caracterizado por jovens do 2º segmento do fundamental até ensino médio. 
Além destas atividades, trabalhamos também na produção de duas ferramentas paradidáticas destinada a toda a rede da SEEDUC, visando o debate sobre os temas relacionados aos povos indígenas em sala de aula. Estes materiais foram, além de um documentário de média metragem, em formato de DVD, chamado Povos Indígenas: Conhecer para Valorizar, com uma tiragem de 4000 exemplares, a publicação de um caderno de textos (no prelo) e a publicação de um sítio na internet (disponível de 2010 até 2013), onde eram veiculadas informações sobre o projeto e sobre os povos indígenas.   
Este foi um projeto inovador e que contou com o empenho e dedicação por mais de três anos, entre a elaboração, execução e finalização dos produtos, das equipes das duas instituições envolvidas. Esperamos que as ideias apresentadas sejam encaradas como um estímulo para novas experiências e práticas que explorem as múltiplas possibilidades que os acervos e o espaço do Museu do Índio representam para o campo da educação. 


Renata Curcio Valente
Antropóloga e Economista
SEESP/CODIC/Museu do Índio


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Porque ir a museus (2)

Faz algum tempo li em algum lugar algo que se poderia traduzir da forma que se segue.  Estudos na área pedagógica afirmam que todo o caminho percorrido para se aprender algo é um  processo de intercâmbio de conhecimentos, conceitos e práticas, em vez de  se absorver de forma passiva um conhecimento fornecido ou transmitido. Neste sentido, podemos acreditar ou mesmo pensar que o espaço museológico é muito favorável para se dar o desenvolvimento dos processos de mudanças de conceitos.
Os mais variados tipos de museus existentes atualmente ( arte, ciências, tecnológicos, históricos, etnológicos, antropologia, etc ) são,  ou deveriam ser, espaços que permitam que o público “observe, interaja e reflita “ , já que diversos e diversificados conteúdos estão ali oferecidos. Por exemplo, caso seja um museu histórico, várias histórias estarão ali contadas de outras fases da história, que pode ser de um povo, de sua forma de viver e de  se expressar culturalmente. Portanto, podem ser lugares que oferecem um conteúdo de forma diferente do que é dado e visto na sala de aula, pois são narrados com linguagem diferente da dos livros do colégio.
 A linguagem diferente aqui referida pode ser um filme, uma instalação, um objeto iluminado, um aplicativo, enfim,  outras maneiras e  formas de contar um fato ou uma história. Por conseguinte, pode-se imaginar que o museu pode se transformar num lugar distinto que você pode ter contato com outras idéias e realidades, onde pode-se aprender – ou intercâmbiar conceitos – de formas diversas.
Essa nova forma de trocar ou de ganhar conhecimentos pode ser uma coisa divertida e nova, e mais ainda, você pode aprender de uma forma divertida sem a pressão da sala de aula. Pode-se então dizer que esses lugares são para aprender de maneira não formal, fato que os pedagogos ou os especialistas em educação conceituam de educação não –formal.
Os museus tornam-se assim um lugar em que se permite conhecer novas realidades não somente junto com seus colegas de escola, mas, também, com a sua família. Uma experiência muito interessante que  você e a sua família juntos podem partilhar, e que cada  visitante terá um olhar e uma  reflexão diferente, entre as diferentes ocasiões que se visitar um ou outro museu, independente da idade e do grau de conhecimento de cada um.

Adaptação de texto
José Antonio Féres Medina
Cargo: Engenheiro
Jose.medina2@funai.gov.br

Fonte:
1) STUART, D. C., Museus: emoção e aprendizagem,  Revista de História.com.br. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/museus-emocao-e-aprendizagem. Acesso em, 31/09/2016.
2) ALVES, C., Por que vistar os museus da USP,  Jornal do Campus. Disponivel em: http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2009/06/porque-visitar-os-museus-da-usp/. Acesso em, 31/09/2016.




Porque ir a museus (1)

Decidir ir a um museu ou a  uma exposição é mais uma das várias decisões que tomamos durante o nosso dia. È importante? Vou gostar? O que eu quero ver por lá? Vai ser legal? Não seria melhor eu ir à praia ou ao cinema? Todas essas perguntas são feitas durante ou antes de eu formar a minha decisão.

Caso você esteja cursando o ensino fundamental ou médio, essa decisão será bem mais fácil de ser tomada, pois, possivelmente, fará parte de alguma atividade do seu currículo.

Visitar um museu ou exposição acompanhado pelos colegas e/ou professor tem suas vantagens. Imagine que, para essa situação, há uma preparação para acontecer essa “visita”, que começa desde a curiosidade de sair da escola de ônibus, passando pela possibilidade de você conhecer novos lugares da cidade, pensar no lanchinho do intervalo, indo até o próprio museu, e tudo isso acompanhado pelos colegas.

Ir ao museu não se resume a uma atividade objetiva de focar um determinado tema ou estudo feito em sala de aula. Ir a museus e espaços expositivos é uma ação para além dessas fronteiras rígidas do formal.  Você vai conhecer gente nova, um prédio novo, regras novas, espaços que são ocupados por diferentes linguagens, sensações e reflexões novas e várias oportunidades de pensar coisas diferentes e novas daquelas do seu cotidiano.

Estes novos espaços possuem grande potencial educativo relacionado a aspectos culturais presentes em nossa ou outra sociedade, e você terá oportunidade de conhecer objetos, ideias e construir novas formas de pensar.

Visitar exposições, museus, lugares históricos, galerias de arte ou lugares da cidade promove descobertas sobre o homem, as populações e suas diferentes produções, e , também, as distintas relações humanas, culturais e sociais.

Adaptação de texto
José Antonio Féres Medina
Cargo: Engenheiro
E-mail funcional: Jose.medina2@funai.gov.br


Fonte:

STUART, D. C., Museus: emoção e aprendizagem,  Revista de História.com.br. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/museus-emocao-e-aprendizagem. Acesso em, 31/09/2016.

ALVES, C., Por que vistar os museus da USP,  Jornal do Campus. Disponível em: http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2009/06/porque-visitar-os-museus-da-usp/. Acesso em, 31/09/2016.

Arquivo do blog

Pesquisar este blog

Você já esteve no Museu do Índio?