sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Programa de Documentação de Linguas e Culturas Indígenas a todo vapor em fevereiro

O segundo mês do ano inicia com a presença de três pesquisadores indígenas Guarani que integram o Projeto “Inventário das Referências Culturais Nhemongueta e Poraive Xondaro dos Mbya nos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo”. De 03 a 07 de fevereiro, Lucas Benite Xunu Miri, Marcelo Oliveira da Silva e Alberto Alvares participam  de uma oficina de transcrição das fitas filmadas no Encontro de Xeramoes, ocorrido na aldeia Três Palmeiras/ ES, em dezembro de 2013.  O trabalho tem orientação do Coordenador Técnico do projeto Guillaume Thomas. A iniciativa faz parte do Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas - PROGDOC, do Museu do Índio.

E as atividades não param por aí.  De  seis a 27 de fevereiro,  outra  etnia do sudoeste do país marca presença no MI. Os Maxakali (MG) participam de uma Oficina Audiovisual integrada pelos  pesquisadores  do PROGDOC, José Ricardo Jamal Junior, Leonardo Pires Rosse e Bruno Vasconcelos, além da pesquisadora convidada Ana Carolina Estrela da Costa.  Destaque, também, para um  encontro de pajés reunindo crianças, jovens e mulheres Maxakali.  O  evento, que acontece na aldeia Cachoeira,  tem na programação cantos, danças, histórias , dietas alimentares, religiosidade e cura. O encontro conta com dois Pataxó convidados da aldeia Barra Velha. Participam, também, representantes das aldeias Verde, Maravilha, Vila Nova, Nova Vila e João Bidé, todas localizadas na Terra Indígena Água Boa/ Pradinho, em Minas Gerais. 
Comunicação Social/ MI

31/01/2014


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A pintura que produz cultura




André Demarchi[1]
           
            Os Mebengôkre-Kayapó são um povo indígena da família linguística Jê, que habita tradicionalmente a região do rio Xingu, ao sul do Estado do Pará e ao norte do Estado do Mato-Grosso. Sua população é de aproximadamente dez mil pessoas que moram em grandes aldeias circulares. Em cada uma dessas aldeias, a cada dia, de manhã bem cedo ou ao fim da tarde, no cotidiano ou durante os rituais, a arte da pintura corporal não cessa de acontecer.   É essa arte que encontramos in progress, no filme Nossa pintura, de Thiago Oliveira e Fábio Nascimento.
            Antes de tudo, Nossa Pintura é um filme de arte. Arte que nos conecta e nos faz conhecer outros mundos possíveis. Arte que segundo a concepção dos Mebengôkre-Kayapó, é antes um meio de tecer relações sociais, do que simplesmente uma forma de contemplação de belo. Para esses índios, famosos por sua luta política e pelas estratégias visuais e, mesmo, espetaculares por meio das quais lutam, a arte é sempre um feixe de relações, um encadeamento de conhecimentos, técnicas, pessoas e corpos, do seu e de outros mundos.
            Como aprendemos com o cacique Kaikware, que nos conta durante o filme, a arte da pintura corporal foi ensinada às mulheres, em tempos mitológicos, pelos Kubenhêpre, os homens-morcegos. Outras técnicas e conhecimentos dessa mesma arte, foram ensinadas, em outros tempos, por outros grupos indígenas como os Djôre. No presente, como sempre fizeram, as mulheres continuam aprendendo com outros, sejam eles grupos indígenas, de quem as mulheres aprendem novos padrões gráficos; sejam eles seres da natureza, de quem elas copiam seus designs, criando novos grafismos; sejam eles os próprios kuben (o modo como nós somos chamados por eles) com quem aprendem a pintar em novos suportes como as folhas de papel e as telas de tecido, onde agora figuram suas pinturas, adornando salas de museus e circulando no mercado de arte indígena.
            Se segundo essa concepção nativa a arte conecta mundos, Nossa pintura, nos faz entrever essas fronteiras, esses contatos, esses nós de uma rede onde relações de alteridade são criadas e mantidas para que se produza corpos belos, fortes e saudáveis. Todo essas técnicas e conhecimentos aprendidos e apreendidos com os outros são mobilizadas em um contínuo processo de produção de beleza, que faz das pessoas seres física e socialmente belos. Este processo acontece cotidianamente e atravessa o ciclo de vida das pessoas, desde o nascimento até a morte. Não é por acaso que o recém-nascido, assim que vem ao mundo, recebe uma primeira camada de tinta em seu corpo ainda frágil. A pintura tanto protege o corpo do bebê contra possíveis doenças, quanto o transforma em um ser plenamente humano. Do mesmo modo, quando uma pessoa morre, seu corpo é longamente pintado para o funeral, para que chegue belo na terra dos mortos. Isso porquê do nascimento à morte, não existe corpo para os Mebengôkre que não esteja pintado. Nas fases intermediárias da vida, homens e mulheres, jovens ou adultos, velhos ou crianças, terão os corpos continuamente pintados com a tinta preta de jenipapo, terão seus cabelos cortados a moda mebengôkre, receberão aplicações de pintura vermelha de urucu na face, nas pernas e no alto da cabeça, terão seus corpos enfeitados com diversos adornos de miçangas e plumas. Ruth Kayapó, uma das personagens do filme resumiu muito bem todo esse processo de produção de beleza e saúde, de demonstração de afeto e carinho, quando disse para seus interlocutores: “Nós não crescemos sozinhos, nós crescemos com a pintura e com os enfeites feitos pelas nossas mães”.
            É esse processo estético, que não caminha sem uma ética particular, que o filme nos faz ver, com uma incrível capacidade de nos colocar ali, na aldeia Môjkarakô, no contexto de produção das imagens. Se o filme nos captura de antemão é porque deixa simplesmente que as mulheres, por elas mesmas, narrem esse processo de produção de beleza, sem, contudo, deixar de demonstrar a presença e certa posição daqueles outros que estão ali para capturar as imagens. Em uma das passagens de destaque do filme, Ngrêjmôro, uma das artistas que trabalha diante da câmera, diz para seus interlocutores: “O branco que mora aqui perto não gosta da gente. Eles falam: vamos acabar com a cultura Mebengokrê! Já vocês, moram tão longe mas gostam da nossa cultura. E nós mulheres estamos mostrando a cultura feminina”. Fabio Nascimento e Thiago Oliveira, receberam então um desafio cumprido com êxito. Fazer com que outras pessoas gostem dessa pintura que produz cultura. Fazer com que estes “outros de longe” apreciem, enfim, a nossa pintura.


[1]    André Demarchi é antropólogo e professor da Universidade Federal do Tocantins. Trabalha com os Mebengôkre-Kayapó desde 2009. É coordenador do projeto Kukradjá Nhipêjx – Projeto dedocumentação da cultura Kayapó, coordenado pelo Museu do Índio/Funai, em parceria com a Unesco. 

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