sexta-feira, 19 de março de 2010

Depoimento - Thini-á e seu trabalho no Rio de Janeiro




Conforme os costumes da etnia Fulni-ô, no momento do nascimento, a mãe índia dá nome à criança segundo os acontecimentos a sua volta. Uma certa noite, nasceu um indiozinho, e sua mãe, Thassi, olhou para o céu e viu que as estrelas eram muitas e, por isso, chamou-o de Thini-á, que significa “estrela”.

Thini-á nasceu às margens do Rio Ipanema, um afluente do Rio São Francisco, nas terras dos Fulni-ô, Estado de Pernambuco. Fulni-ô significa “a gente que mora junto ao rio”. São falantes da língua Yathê, tronco macro-Gê. Desde pequeno, foi um índio muito irrequieto e resistente às descaracterizações culturais e invasões que sua tribo sofreu. Por isso, com o intuito de ajudar o seu povo, deslocou-se para Garanhuns (em Pernambuco), para aprender a língua portuguesa e estudar. Depois de terminar o primeiro grau, voltou para a nação Fulni-ô. Com os conhecimentos que o estudo lhe proporcionou, foi para Brasília acompanhar de perto as ações da FUNAI e do Ministério da Justiça em relação à política de demarcações de terras. Desejoso de mais conhecimento para melhor ajudar seu povo, retomou os estudos, completando o segundo grau.
Hoje, aos 39 anos, mora no Rio de Janeiro, onde em escolas e centros culturais desenvolve projetos de valorização do conhecimento da cultura Fulni-ô e da língua Yathê. Anualmente, participa do ritual Ouricuri, local e momentos sagrados, quando de os Fulni-ô reafirmam suas crenças ancestrais. Esse ritual tem a duração de 90 dias. Nele, os Fulni-ô “voltam no tempo” em ato de resistência cultural.

e-mail de contato: tfulnio@gmail.com

Os índios Waimiri-Atroari no contexto da Ditadura Militar



O trabalho "A comunidade indígena Waimiri-Atroari e a atuação da FUNAI nos anos da Ditadura Militar" procurou explicar a expansão do sistema econômico de mercado e suas consequências para uma população indígena em específico: os Waimiri-Atroari, estabelecida ao norte do Estado do Amazonas.
Diante do contexto do milagre econômico e das políticas implementadas desde a extinção do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e da criação da Fundação Nacional do Índio, mais conhecida como FUNAI, foram implementadas diretrizes governamentais buscando uma dinamização da região amazônica que, por consequência, atingiria diversos povos indígenas da região norte do país.
Este processo ocorreu num contexto político muito complexo, pois o país vivia desde 1964 numa Ditadura Militar, em que os movimentos sociais e as associações indígenas não estavam ativas, sendo silenciadas e perseguidas pelos militares. Deste modo, diversos direitos foram atingidos e o poder de barganha era quase inexistente, não permitindo que os povos indígenas, por exemplo, enfrentassem com eficácia o uso inapropriado de seus espaços vitais.
Uma das formas de vilipendiar os Waimiri-Atroari foi o estabelecimento de uma "pacificação", sendo a FUNAI a responsável por estabelecer um Posto de Atração. Com isto, ela procurou amenizar os problemas decorrentes do contato forçado estabelecido pelos militares. Esta tentativa de disciplinarização do povo indígena resultaram em maiores embates e problemas para ambas as partes.
Segundo o panorama feito por Stephan Baines em seu trabalho , uma das consequências que os Waimiri-Atroari tiveram como resultado desta integração forçada foi uma inserção muito precarizada no mercado de trabalho. Por exemplo, a remuneração pelo seu trabalho artesanal e na colônia agrícola era irrisória, em comparação com os salários médios realizados pelos mesmos trabalhadores de origem não indígena.
Um caso emblemático do desenvolvimento que comprometia o território dos Waimiri-Atroari foi a construção da rodovia BR-174, que cortou a Floresta Amazônica e a região dos índios ao meio. Ela faria a ligação de Manaus a Boa Vista e tinha como objetivo integrar os países vizinhos, atendendo a aspectos políticos, econômicos e militares.
Com o desenvolvimento das obras de construção da rodovia, os indígenas foram duramente atingidos, tanto no que diz respeito ao seu território quanto a sua integridade física. Os militares se utilizaram de diversos meios para atingir o seu objetivo de concluir a obra, por mais que para isto ocorressem diversos problemas para os Waimiri-Atroari.
As principais consequências para os índios após a conclusão da obra foram a mortandade advinda pelo contágio de doenças devido ao contato com um provisório desmantelamento de sua cultura e muitos outros direitos indígenas que foram desrespeitados.
Foi possível inferir com esta pesquisa que os militares detentores do poder naquele momento não respeitaram a cultura e as demandas dos Waimiri-Atroari. A Ditadura Militar pôs em prática um modelo autoritário de desenvolvimento econômico que não media esforços para a consecução dos seus objetivos.
Para o bem dos povos indígenas e da sociedade brasileira em geral, hoje estamos num modelo democrático, desde a promulgação da Constituição de 1988. A partir de esforços em comum entre os povos indígenas e as agências governamentais, como o Museu do Índio, estão acontecendo novas políticas inclusivas e participativas, onde o índio é agente ativo de sua história.

Artigo realizado por Rodrigo Piquet Saboia de Mello, atualmente consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em recursos audiovisuais no Projeto de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (PRODOClin) a partir da monografia apresentada na Universidade Federal Fluminense para a obtenção do bacharel em Ciências Sociais, com o seguinte título: "A comunidade indígena Waimiri-Atroari e a atuação da FUNAI nos anos da Ditadura Militar." Menção honrosa na categoria Sociólogos do Futuro do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, ocorrido entre os dias 28 a 31 de julho de 2009, na Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Conheça o Museu do Índio



O Museu do Índio registra o conhecimento de natureza material e imaterial produzido pelos povos indígenas no Brasil. Seu rico acervo reúne peças etnográficas, publicações históricas , documentos sobre vocabulários lingüísticos de povos já extintos , além de registros audiovisuais, iconográficos e sonoros . Entre as atividades promovidas pelo museu, o visitante pode conferir a exposição de longa duração “A Presença do Invisível” e o projeto Índio no Museu, atualmente com mostras sobre a etnia Mbya Guarani, originária das regiões sul e sudeste e centro-oeste do Brasil . Na Loja Artíndia do Museu do Índio, o público pode adquirir peças de artesanato, decoração e adornos corporais produzidas por índios de diversas regiões do país.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Capacitação em Vídeo para os Paresis




De 8 a 12 de março o Museu do Índio, por meio do Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, promoveu, na sua Galeria de Arte , uma Oficina de Câmera para os Paresis. À frente da ação está a pesquisadora Priscila Rodrigues Bittencourt do Núcleo Next Imagem (UFRJ). Os participantes Joscelio Onizokaece , Marcelo Zokezokemaiece e Elizabete Akezomaialo são todos da Aldeia Formoso, situada em Tangaré da Serra, em Mato Grosso. Joscelio Onizokaece, vice-presidente da Associação Onetiholazere e educador na aldeia , considera este projeto cultural fundamental para as atuais e futuras gerações . Segundo ele, é de vital importância que os índios estejam capacitados a registrar sua própria história e cultura.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nova Edição do Jornal Museu ao Vivo



Na edição 34 do Jornal Museu ao Vivo, a jornalista Cristina Botelho faz uma análise do discurso da comemoração do Dia do Índio veiculado na mídia televisiva.

A cena da comemoração do Dia do Índio na tela da tevê

As emissões ao vivo da programação do Dia do Índio (19 de abril), exibidas por telejornais, são celebrações que lembram aos brasileiros a cultura indígena como fragmento de nossa história, de nossa identidade, por meio de sentidos fortemente presentes no imaginário nacional.
Quando a TV transmite ao vivo a comemoração do Dia do Índio, acabam as fronteiras temporais – o presente e o passado se misturam –, além de criar um efeito de realidade por se reportar diretamente ao acontecimento. A mídia, então, assume o papel de verdadeira guardiã da data e de construtora de uma dada memória da sociedade.
São matéria leves, “matérias de boa tarde”, no sentido de que sempre encerram a edição. A princípio, não possuem a pretensão de debater ou aprofundar a questão indígena no País, mas, sim, de celebrar a data, para que os índios – “os primeiros habitantes de nossa terra” ( enunciado recorrente nas aberturas dos noticiários analisados) - não sejam esquecidos.
A regularidade de cenas aponta para a repetição do enunciado do índio autêntico (primitivo) num cenário de festa, isto é, a imagem dominante de índios dançando e cantando com os corpos pintados e enfeitados. Essa representação está ligada ao discurso primitivista, que remete ao passado, à origem da história da humanidade, silenciando o índio contemporâneo. Para o senso comum, um índio de verdade – autêntico - deve viver no mato, usar “cocar” (diadema) e estar com o corpo pintado.
O segmento final dessas matérias tem marca discursiva importante, já que é a última ideia do diálogo da mídia com o público. Revela-se, então, como a cena emblemática da comemoração do Dia do Índio pela tevê. É uma celebração midiática construída por elementos visuais, angulação da câmera e sonoridade.
O uso predominante do plano médio-conjunto demonstra a intenção de enquadrar, em primeiro plano, apenas a ação de comemoração dos índios. O espaço Museu do Índio e sua equipe e o público não merecem destaque na tela. Os elementos de paisagem exibidos não identificam o local do acontecimento. Considerando que as técnicas de manejo da câmera produzem sentidos, esta angulação da câmera, repetida pelos anos, produz uma imagem para simbolizar a comemoração do Dia do Índio, para ficar na memória. Assim, o que é enquadrado é a cena da roda, onde índios cantam e dançam pintados e enfeitados.
As cores em profusão, na tela, possuem uma força comunicativa e um poder de apelo irresistível. O elemento sonoridade realça o caráter da cena como uma celebração da mídia. Depois do encerramento no estúdio pelos apresentadores (âncoras), voltam as imagens - ainda ao vivo do Museu do Índio - de índios dançando e rolam os créditos técnicos ao som da vinheta de fechamento do telejornal, imprimindo, assim, a identidade da emissora na comemoração.
A televisão privilegia imagens que reforçam aspectos primitivos e genéricos dessas sociedades. Tal fato impede que a diversidade cultural dos grupos indígenas brasileiros seja amplamente mostrada. Nas cenas de encerramento descritas, observamos a existência de uma rede de imagens implícitas como a do índio autêntico (primitivo). Estas funcionam como vestígios e pistas, reforçando preconceitos sobre os índios. Pertencem a um imaginário construído pela escola, cinema, literatura, música e história oficial. Remetem a uma memória discursiva construída em tempos passados.
Entretanto, durante os levantamos realizados para esta pesquisa, uma questão que chamou a atenção relaciona-se às possibilidades de reação que os índios podem manifestar face às atuais condições de produção da mídia. Há situações , nos noticiários analisados, em que as vozes indígenas conquistam posição no jogo de práticas discursivas disputado nas telas da tevê.
A contribuição ao processo de reflexão, realizado pela instituição Museu do Índio, em relação à divulgação da temática indígena e ao espaço dado pela mídia às vozes indígenas é a justificativa desta pesquisa. Para tal, a análise do clipping televisivo - uma atividade do assessor de imprensa – é relevante. Foram analisadas reportagens e programas sobre o assunto referente ao período 1996-2008.
* A autora, jornalista, é Mestre em Memória Social pelo PPGMS/UNIRIO e trabalha na Assessoria de Comunicação Social do Museu do Índio desde 1987. Apresentou a pesquisa “A construção discursiva da comemoração do Dia do Índio no Museu do Índio pela mídia televisiva” na VIII Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM) – Diversidade e Poder na América Latina, em Buenos Aires, em outubro de 2009.

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