quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Projeto "O Museu do Índio vai às escolas"

Os projetos educativos voltados para a visitação escolar em museus são determinantes para o sucesso na interatividade entre o aluno/professor visitante e as unidades museológicas visitadas. Diversos museus fazem dos seus projetos educativos uma forma de aproximação com o público escolar e fator primordial na comunicação com o público externo.
Inserido no projeto educativo museológico, vários museus se propõem a sair de seus espaços físicos e levar para as escolas uma parte de seus materiais expositivos. É relativamente comum denominarem esse tipo de atividade como “O museu vai à escola”. Esse tipo de projeto traz como benefício principal oferecer exposições itinerantes àquelas unidades escolares que têm dificuldade em deslocar suas turmas para uma visitação presencial nos museus, seja por dificuldades financeiras na contratação de transporte ou por ausência de tempo pedagógico para realização de atividades externas.
O oferecimento de visitas qualificadas de equipe educativa museológica nas escolas permite um diálogo aberto entre a comunidade escolar e os museus, ressaltando que o material levado às escolas é somente uma pequena parte daquilo que é oferecido nos espaços físicos dos museus. Esses projetos também têm a característica de ampliar a curiosidade latente no público estudantil acerca das temáticas propostas. Não raro, depois das visitações às escolas verifica-se um retorno de público presencial nos museus, em geral até como contrapartida natural pela divulgação de outros produtos expostos. Essa prática também se reflete no acesso aos dados virtuais nas páginas dos museus na internet por parte das comunidades escolares.
O que o Museu do Índio poderia oferecer às escolas?
A primeira coisa que devemos ter em mente, após acordo entre o museu e a escola a ser visitada é o transporte disponível e a equipe que irá se deslocar à escola. O Museu do Índio possui entre seus veículos um utilitário com capacidade para 14 passageiros, se pensarmos em uma equipe mínima de dois monitores/facilitadores e um servidor que atuaria tanto como contato com a direção escolar como possível palestrante em caso de demanda por informações mais qualificadas sobre a temática indígena.
A periodicidade nas visitações poderia ser de duas visitas semanais, iniciando com uma visitação escolar na forma de “projeto piloto”, até que tenhamos um quantitativo considerável de agendamentos.
Na parte de estrutura material, uma proposta seria levar Kits etnográficos e fotográficos além de vídeo institucional e vídeo etnográfico.
No sentido de otimizar o pouco tempo disponível dentro das unidades escolares haja vista a quebra da rotina diária na escola, faz-se necessário um acordo negociado entre o Museu do Índio e a direção da escola a ser visitada. Seria interessante que parte da equipe pedagógica da escola se responsabilizasse previamente pelo espaço a ser oferecido e mídia para os vídeos do acompanhamento aos alunos que estiverem presentes no evento. A presença de professores também é vital para o bom andamento das atividades bem como pelo retorno posterior dos impactos da visita a escola.  Fator não desprezível ao projeto é a análise anterior do público escolar a ser atendido. As unidades escolares dividem seus alunos por série e espera-se que a faixa etária seja relativamente uniforme dentro das séries. A faixa etária dos alunos está agrupada dentro dos seguintes segmentos:
Pré-escolar – crianças até 5 anos de idade;
1º Segmento – crianças de 6 a 10 anos de idade;
2º Segmento – crianças de 11 a 14 anos de idade;
Ensino Médio – adolescentes de 15 a 17 anos de idade.
É essencial a adaptação da linguagem adequada a cada faixa etária no momento de diálogo com as turmas, assim como na utilização do material levado para interação.

Adaptação de texto
Alexander Noronha de Albuquerque
Sociólogo

Referências
DUARTE, Thiago Melo e SANTOS,  Juvandi de Souza. O Museu vai a escola: exposição itinerante do Museu de História Natural da UEPB. http://mhn.uepb.edu.br/revista_tarairiu/n8/8_art2.pdf, acesso em 08/09/2016.

O Museu vai à escola: Museu de Ciências Itinerante em atendimento às escolas rurais do Município de Juiz de Fora, MG, Brasil. “Cartilha do Professor”, http://www.ufjf.br/malacologia/files/2012/12/Cartilha_2.pdf, acesso em 08/09/2016



Os espaços expositivos do Museu do Índio

Entre as atribuições do Museu do Índio, unidade técnico/científica da Fundação Nacional do Índio/Funai, está a disponibilização de informações através de diferentes suportes, incluindo exposições. Para efetivar essas exposições e alcançar o maior número possível de visitação presencial, o Museu precisa permanentemente realizar reformas e adaptações no prédio do casarão e demais áreas expositivas. Não é uma tarefa fácil diante das restrições econômico/financeiras impostas cotidianamente pelos órgãos gestores. Desta forma, o processo de reorganização do espaço demanda tempo e recursos, além de grande esforço de pessoal capacitado nas áreas de engenharia, arquitetura e museologia para divulgar informação qualificada e compatível com a vivência dos povos indígenas brasileiros. Reduzir o preconceito e permitir que as populações indígenas se expressem para a sociedade não indígena é condição básica para que se mude o olhar leigo e impregnado de inconsistências que envolvem a temática indígena.
Para realizar tais atividades o museu conta, no atual momento, com uma exposição de longa duração, intitulada “No caminho da miçanga- um mundo que se faz de contas”, uma mostra temporária intitulada “O Poder da Beleza: os Ashaninka” e uma mostra fotográfica no muro externo do museu. A todo esse belo material exposto somam-se as atividades propostas na Biblioteca Marechal Rondon e a venda de artesanato indígena na loja do museu. É importante ressaltar que a maior parte do público presencial é composta de visitação de alunos de escolas públicas e particulares dos municípios que compõem a região metropolitana do Rio de Janeiro. Recentemente os jardins do museu vêm sendo ocupado por grupos de mães que encontram aqui um ótimo e seguro acolhimento para receber um seleto grupo de crianças em seus primeiros anos de vida. É gratificante para os envolvidos na questão indígena nacional saber que podemos contar com o esforço e dedicação dos servidores e equipe contratada para atender às mais diferentes demandas dos visitantes. Não por acaso o Museu do Índio se tornou referência nacional e internacional na área museus etnográficos.

Adaptação de texto
Alexander Noronha de Albuquerque
Sociólogo

Referências

http://museudoindio.gov.br, acesso em 01/09/2016.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Museu de Portas Abertas: o acervo etnográfico do Museu do Índio

Em 2016, o Museu do Índio completou sessenta e três anos de atuação no campo da preservação da memória e do patrimônio dos povos indígenas no Brasil. Criado em 1953, a partir das atividades de pesquisa da Seção de Estudos (SE) do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), o museu está ligado à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e é reconhecido como um dos mais importantes museus etnográficos do país, pela riqueza e diversidade de seu acervo. Além do reconhecimento alcançado pelo rigor técnico com que guarda e conserva os bens de cultura o material dos povos indígenas, a instituição possui o segundo maior acervo etnográfico dos povos indígenas no Brasil, com pouco mais de 19 mil objetos etnográficos contemporâneos, confeccionados exclusivamente por povos indígenas que viveram e vivem no território brasileiro e da América Latina. São expressões da cultura material que representam aproximadamente 150 povos indígenas de todo o Brasil e alguns da América do Sul.
Quem imagina esta riqueza que o acervo do Museu do Índio guarda e preserva? Quantas histórias e conhecimentos de artistas indígenas e de suas culturas estão presentes nestes objetos conservados nas salas das reservas técnicas? As histórias de como as coleções etnográficas se formaram e como são guardadas expressam as transformações no pensamento antropológico, bem como revela mudanças nas técnicas e nos instrumentos de organização de acervos nos museus do Brasil. Neste artigo, procurei trazer um panorama geral sobre a história da formação do acervo etnográfico do Museu do Índio e um breve levantamento de seu conteúdo. Esperamos nos próximos textos, abordar coleções específicas, com o intuito de contribuir para o conhecimento sobre este diversificado mundo da cultura material dos povos indígenas. 
A organização do acervo do Museu do Índio se baseou no desenvolvimento de categorias básicas já consagradas na bibliografia etnológica para classificação de objetos indígenas. Essa classificação leva em conta primordialmente a matéria-prima empregada, a técnica de confecção que dela deriva e a morfologia do artefato. Assim, o acervo do Museu do Índio foi organizado por tipos de coleção, tomando por base uma classificação desenvolvida no Brasil por Berta Ribeiro em pesquisa sobre a “nomenclatura das coleções etnográficas”, que teve como desdobramento a publicação “Dicionário do Artesanato Indígena” (1988). A partir desta nomenclatura que regulamentou as normas para trabalhar com coleções etnográficas, o acervo etnográfico do museu do índio foi organizado com critérios “científicos”, sendo estabelecidas 11 categorias para os tipos de coleções, a saber: 1) objetos rituais, mágicos e lúdicos, 2) adornos plumários, 3) armas, 4) cerâmica, 5) cordões e tecidos, 7) instrumentos musicais e de sinalização 8) utensílios e implementos de materiais ecléticos, 9) trançados, 10) etnobotânico e 11) adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador. 
O acervo apresenta um certo equilíbrio quanto à distribuição por tipo de categoria (coleção), cada uma com um total variando entre 1750 e 2400 objetos, sendo que as duas maiores coleções são as de adornos de materiais ecléticos, indumentária e toucador, com 4.058 itens, seguida pela coleção de cerâmica, com 2.478 peças. A categoria com menor representatividade é do acervo de etnobtânica, que tem apenas 54 itens registrados. 
As melhorias em relação aos acervos etnográficos vêm ocorrendo mais recentemente, a partir dos anos 1990, quando adotou-se uma política para maior organização das Reservas Técnicas para melhor conservação do acervo etnográfico e, posteriormente, a partir de 2000, foi iniciado um novo processo de reformas com objetivo de otimizar o espaço destinado ao acervo e visualizar o mesmo objetivando o controle de pragas. Em relação à documentação dos objetos etnográficos, até 1967 o registro das peças era feito item a item, individualmente, sendo somente a partir de então implementado o registro tripartido, por “coleção”. Esta informação facilita ao pesquisador identificar um conjunto de peças que foi doado ou comprado pela instituição de um mesmo “colecionador”. No entanto, esta “coleção” não apresenta necessariamente uma coerência, nem representa uma mesma coleta, feita por um mesmo pesquisador, em uma mesma comunidade ou um determinado período, mas reflete apenas a formalização da entrada de bens que são patrimonializados pelo Estado. Neste sentido, até meados dos anos 1990, a instituição o fazia por meio do Livro de Tombo, quando então o registro passou a ser feito também em uma base de dados digital. Em 2007, migrou-se para um software livre para inclusão de itens individuais, que possibilita um número de informações bem maior que o livro de tombo. Assim, no que se refere à difusão de informações, a instituição vem aperfeiçoando seus instrumentos de pesquisa on-line, oferecendo informações e imagens sobre seus acervos, que encontram-se disponíveis ao acesso por qualquer pessoa, de qualquer lugar, por meio da rede da Internet. Mais recentemente, com o Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (ProgDoc), outras atividades contribuiram para o aprimoramento de informações das coleções existentes, com o acompanhamento e revisão das informações registradas nas fichas catalográficas dos objetos pelos próprios indígenas, além da aquisição de novas coleções. 
O acervo do Museu do Índio apresenta um amplo universo de oportunidades para investigação, caracterizando-se como um complexo e heterogêneo conjunto de peças, coletadas e colecionadas ao longo da história da instituição por diferentes agentes. Algumas curiosidades são as coleções formadas por predidentes da República, presidentes da Funai, padres e missionários. Atores importantes foram  sobretudo os sertanistas que desbravaram as matas e tiveram envolvidos nos processos de contato, como também os funcionários e indigenistas da Funai e de outras instituições, que colaboraram com itens para a formação dos acervos do Museu do Índio. Entre eles, destacamos Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, os irmãos Villas Boas, Max Boudin, Egon Schaden, Ney Land, Geraldo Pitaguary e Mário Simões, que organizaram coletas e fizeram registros fotográficos e fílmicos de alguns grupos indígenas, como os Karajá, Kadiwéu, Maxakali, Karajá, Baniwa, povos do Xingu, entre outros. 


                                                               
                          Terena. Pote. Mato Grosso do Sul. 1955                                        Coleção: Roberto Cardoso de Oliveira      

                                                 
Urubu. Pente de uma haste singelo . Maranhão. 1952
Coleção: Darcy Ribeiro

Mais recentemente, pesquisadores acadêmicos vem contribuindo para a qualificação das coleções etnográficas, que apresentam maior definição em termos de informações documentais e etnográficas. Aí podemos destacar Roberto Cardoso de Oliveira, com ampla coleção do povo Terena, Julio Cézar Melatti e Delvair Montaigner, que formaram importantes coleções dos povos Marubo, Matis e Mayoruna, Berta Ribeiro, entre outros com a coleção Araweté, Lux Vidal e a coleção Palikur e dos povos do Oiapoque, Dominique Gallois e a coleção Wajãpi, Regina Muller e as cerâmicas Asurini, Lucia van Velthem, com coleções Wayana e Aparaí, entre outros. 
                                                  
                       

 Wajãpi. Brinquedo de bico de tucano. Amapá. 2001. 

                           Coleção: Dominique Gallois                              


 Wajãpi. Amuleto Wayãpi. Amapá. 2001
                                             Coleção: Dominique Gallois                                                                                    


 Importante destacar as inúmeras coleções formadas pelos próprios indígenas desde os anos 80, como as coleções de trançados dos indígenas Xyhcaprô Krahô, Jacalo Kuikuro e Julia Macuxi, bem com as de plumárias, de Talukumã Kalapalo e Arrula Waurá e a grande coleção de cerâmica da índia  Quitéria Pankararu.  


Kalapálo. Braçadeira emplumada. Mato Grosso. 1987.
Coleção:Índio Tafukumã Kalapálo


Assim, apesar de ter um alto nível de organização dos acervos institucionais, foi possível identificar que muitas informações sobre a história das práticas institucionais de colecionamento, sobre os processos de formação das coleções e sobre os agentes envolvidos nestes processos ainda estão por ser feitas a partir da pesquisa no acervo etnográfico. São muitas as possibilidades de explorar e contribuir para o melhor conhecimento da história dos povos indígenas no Brasil e de sua ampla contribuição artística. Como os eventos de arte em que o público circula por entre os ateliers de arte espalhados pelos bairros da cidade, a pesquisa no acervo etnográfico pode ser uma forma de percorrer as vielas e trilhas por entre os objetos de arte dos povos indígenas no Museu do Índio, observando, conhecendo e desfrutando a sua beleza e diversidade, como se tivesse mesmo visitando os “ateliers” indígenas. 


Renata Curcio Valente
Economista e Antropóloga 
    

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